6 de julho de 2010
**"Um homem não é outra coisa senão o que faz de si mesmo." Jean Paul Sartre
Não temos como fugir ao trajecto iniciado.
Tudo o que um dia nos marcou vai connosco para a vida. Não temos como não regressar ao que nos mudou para melhor.
De repente, mesmo quando pensamos ter saído dessa estrada, ela leva-nos de novo ao mesmo lugar. Acredito que seja para nos lembrar que a vida sabe o que faz.
Que o sofrimento apenas nos obriga a sair de nós. A IR. E, é nesse Ir que nos encontramos.
Olhando para trás o peso os momentos sofridos passa a ser “leve”. De certa forma, com um sabor especial. O coração não se queixa, em vez disso, ri baixinho e sussurra “ainda bem que foi assim…”
A nossa terra, não é, definitivamente, o lugar onde nascemos…mas aquele ao qual sentimos pertencer. Esse não nos deixa ficar muito tempo longe. Sente-se uma ressaca amarga quando não sentimos o seu cheiro, o sabor da panela que deixa cozinhar a comida, o sopro na cara ao abrir a janela do quarto todas as manhãs.
Hoje, tenho a certeza que o “bilhete” não caiu nas minhas mãos por acaso. Que nunca amei por acaso. Que nunca sofri (desmedidamente) em vão! Que sempre fui onde tive de ir. E que, não pertenço a lugares comuns, nem a salas ou praças vazias.
Hoje tenho a certeza, que não consigo sentir-me viva fazendo o que sonharam para mim.
Hoje…tenho a certeza, do que não quero! E coloquei de lado a lista do que gostaria… Lamentavelmente, tenho de lutar pelo que não quero ser!
Que perda seria a vida se no meu suspiro final pensasse que apenas o meu corpo viveu, e a minha alma esteve “presa”. Protegida! Mas absolutamente limitada.
Que o MEU AMOR não te prenda.. que o Teu Amor nunca me sufoque. Porque nada sobrevive numa gaiola colorida para disfarçar as grades.
Quando olho para mim, gosto profundamente daquela que fui nos momentos de loucura, de sofrimento, de lágrimas….porque lhe resisti!
Porque não seria o que sou se não lhe tivesse sobrevivido. E é uma das poucas certezas que tenho. Apesar, de ainda assim, quando alguns olham, vejam apenas o que fui em pequenas partes de mim mesma, sem me verem a mim na totalidade.
Um dia, estarei numa praça…algures em África…não terei “Diploma” para mostrar, não precisarei de bata branca, não terei ordenado certo.
-Pagarei o preço que tiver de pagar para que isso aconteça!
Em cada final de dia, terei feito aquilo que mais amo fazer. Com a matéria dos anos de estudo na ponta dos dedos…para tocar o próximo! E, fazer dos dias deles um eterno “baloiço” onde se pode voar por momentos… e sorrirem tanto, como irei sorrir em todos os meus minutos de cansaço.
Quando olhar para trás…nesse dia, direi novamente, apesar de ter renunciado aos projectos que traçaram para mim, A VIDA TEM SEMPRE RAZÃO!
E quando suspirar, na vida ou na partida...será um suspiro aliviado, solto, feliz...porque, não só terei renunciado ao pior de mim...mas ao que teriam feito de mim, se eu tivesse permitido!
L. Blue
* Photo: My Journey - Randy Rakhmadany
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