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6 de setembro de 2010

*

P.S


Montanhas.
Demasiado fumo.
Nuvens escondendo o verde.
Curva estreita.
Escapam passos.
Vejo o corpo e as mãos à espera. 
A entrega alucinada.
Abraça-nos a mudança.
Da curva vê-se uma longa estrada e uma paisagem árida mas tranquila.
É sede.
É fome.
É Vontade!
São os braços que se embrulham no colo, formato presente, com laço para rasgar e papel para espalhar pelo chão como no Natal.
Arranca-se sem princípio, meio, nem fim. Principalmente sem fim. Totalmente sem meios.
Há luz e contraluz. Não se vê nada e conhece-se o todo.
É tacto. É olfacto. São sentidos…
-Os abraços.
Um pouco menos do que se quer, bem mais do que se espera.
Reencontro com a natureza na serena entrega do passo que acalma, das pernas que se fazem ao caminho. Feliz entrega ao percurso da casualidade.
E dentro…dentro faz-se música e dela nascem todos os sons. E descobre-se a voz. Encontra-se “A” palavra.
Quadro sem fundo.
Linha recta.
Parede branca e lençóis azuis onde se descrevem selvas e desertos.
Dança.
Contradança.
Espaço infinito e pés descalços para rodopiar em voltas e mais voltas de braços abertos para o vento num amarelo- torrado “made in África”.
Lambem-se feridas.
Prepara-se o leito.
Faz-se o ninho.
Criança crescida, mãe com a vida de mochila às costas rumo à natureza, sem medo de pecar.
Sem medo de cair.
Sem medo de chegar.
Sem medo de voltar.
Mãe África .
Cheiro a terra batida, muito calcada. "Bafarada" quente que imana de nós e do outro.
Transpiração, humidade.
Cabelo apanhado, para segurar a juba e libertar as costas para o sol queimar.
Alma em mim e o meu caminho comigo.

Não somos Eu e Tu…somos “Nós”.
Sinal aberto.
Verde. Azul.
No fundo da estrada o mar azul, e um mergulho profundo, inteiro. 
Quando a música tocar estaremos lá.
E, com a nossa pauta escrita, com quatro mãos dadas, em movimentos de dança tribal, no olhar e no sangue que nos une, uma só nota…

”PS. LION MOTHER”.

L.Blue

2 de setembro de 2010

"E que a minha loucura seja perdoada....porque metade de mim é amor...e a outra metade: Também!" Oswaldo Montenegro









O que acontece na vida é que nada se resgata.

O TEMPO nasce todos os dias no momento em que abrimos os olhos.
Não se resgata nem um minuto.
Não se resgata nem um segundo! Nem mesmo quando é absolutamente fundamental.
Assim como não há valor atribuído para pequenos momentos de extrema beleza, não há nada que apague a coisa feia que se absorve pelo olhar, pelas mãos, pelo olfacto…
“Mudam-se os tempos…mudam-se as verdades…” e a minha é hoje diferente da que foi ontem. Nada me surpreende. Mas pouco existe que me deixe ferida. Mas fiquei. E ainda fico. Porém, não é proporcional o meu riso comparado com o meu choro. Vale o dobro um riso desdobrado em gargalhada.
Fui vendo muita coisa. Dentro e fora de mim. Orgulho-me dos meus “Nãos” mais do que dos meus “Sins”.
Não suporto essa sabedoria de bolso de quem passeou pelo mundo mas não apreendeu rigorosamente nada…e ainda assim considera ter apontamentos no bloco A5 que retira prontamente da carteira para se lembrar das notas e criticar o que não viu com os olhos mas apenas com a sua lente fotográfica.

O único problema da mudança é quando temos de a fazer sem rede. Sem proteção. Com consequência.
Se cairmos, caímos absolutamente sozinhos e nada há a fazer senão levantarmo-nos de novo, independentemente da dor ou da náusea.
-Não é a mudança que assusta mas o que fazer com ela.
São imensas as possibilidades. Encontrar a que resultará pode levar o seu tempo.
São muitas as quedas.
- “Adeus!” E saber que posso não voltar a tempo. E que farei com esse sentimento de não chegar a tempo?

Não acredito nessa coisa chamada ordem natural da vida. Mas nem a coragem me faz esquecer essa forte possibilidade.

Não é fácil a orfandade nas tomadas de decisão.
São três passos para trás…um cheiinho de medo para a frente e assim sucessivamente.
Algo nos conforta brutalmente: quando CHEGAMOS ao nosso destino.

A vida há-de ser sempre busca incessante, mesmo quando acharmos que já conquistamos tudo.
Que a alma seja grande e não se perca em reflexos nem enganos. E que nunca me esqueça de onde vim, por onde entrei. Mas principalmente, que encontre a PORTA GRANDE DE SAÍDA, porque faço questão de sair por ela em direcção ao AZUL.

L. Blue