Acordei triste. Sonhei com coisas
de criança. Coisas “não minhas”. Acordei e dormi triste.
Ainda não reconheço este quarto
como meu e, por isso, também estranhei o sítio onde estava. Primeiro,
julguei-me no quarto em casa dos meus pais, depois na outra casa no Palmarejo mas,
porque estava quente e tinha luz, percebi que estava na nova morada.
Triste (...) por essa pequenez dos actos. O desafecto. Essa falta de educação que,
felizmente, na minha terra não é frequente.
-Ah! Como sinto falta do “Bom
Dia Menina, sai um cafezinho?, naquele sotaque
nortenho!
Mas, é a minha África. Está
quente lá fora, apesar do dia estar um pouco ventoso. E, terei de sair para a
rua. O sol está aberto.
Sentei-me de imediato para
escrever, eram oito da manhã e sentei-me para escrever. O café ainda vai a meio
e acho que ainda não acordei definitivamente. Mas, tinha palavras comigo.
Quero comprar uns sofás. E uma
mesa de centro, branca, para colocar um anjo da guarda. A TV não me faz falta,
ainda por cima numa altura em que apenas transmitem notícias enfadonhas e
desanimadoras. Há quem lhes atribua verdade eu, considero-as desonestas. Não se planta uma flor dizendo que vai chover fortemente. Alguém dizia, "não importa vencer a guerra mas como se travam as batalhas".
Ontem acordei com uma mensagem
tua. Não esperava. Acordei contigo. Mas ontem, não estava sol como hoje.
Parecia Portugal. Dia cinzento e com rajadas de vento. As árvores, aqui na
frente, abanavam, abanavam…
Ouvem-se sempre as senhoras com
os pregões: “Banaaaaaaanaaaaa”, ”Papaaaaapaaaaiaaaaa” e as vozes das crianças,
ali mais ao fundo, na escola. Não se percebe o que dizem. Mas ouvem-se bem.
A casa ainda está muito vazia.
Mas sinto-a “leve, leve” como dizem os Santomenses. A pouco e pouco,
transformo-a em Casa.
Quantas vezes, esperei manhãs,
tardes, dias inteiros até escurecer, que viesses. Como hoje.
O dia começa solarengo. Ventoso,
mas cheio de sol. E espero que chegues. Como as crianças quando lhes prometemos
sorvete na Cruz de Papa e aguardam ansiosamente o momento. Depois, tal como
elas, quando a hora tarda e os gelados fecham, entristeço e, entristeço.
Se por horas a fio começo a ser
feliz (relembrando A. Saint-
Exupéry na sua frase “se me disseres que vens às três da tarde, às duas já
começo a ser feliz…", por imensa eternidade, por tempo indefinido e assimétrico,
escureço como a noite que chega.
É aí que te sinto não meu.
Prefiro esta descrição. De outra casa. De outros lugares que não
este. De outras histórias que não as minhas e, todas as minhas viagens perdem o
sentido, porque não chego a desembarcar em ti. Não coloco amarras e, não abeiro
ao porto. Não te mostro as fotografias, não te leio postais, não rio contando
as peripécias, as aventuras grandes e as pequenas. Não te conto de mim. E de
tudo o que poderia, ainda, fazer.Não te consigo ensinar o valor do que não se vê...
Assim somos nós. Prontos para o
encontro, mas longe na entrega. Com medo, com medo.
Nunca leste Paulo Coelho…. “os
barcos estão mais seguros no cais mas, não foi para isso que construíram os
barcos”… e eu, eu li demais. Desde sempre. Fazia corridas para a biblioteca
da vila com 5, 6 anos. Aos 5 anos já lia na Igreja… Li demasiado. Li demais…
Um dia, talvez, como quase
sempre, acabará a espera. Não porque pegues na chave da porta, pousada aqui do
lado do computador e, resolvas entrar e sair várias vezes ao dia, mas, porque
não entrarás mais! E, não te esperarei mais. Assim é o mundo do Amor não livre.
Nunca carreguei esse peso. Apenas
conheço a consequência do acto. Não sei até hoje o que é carregar o fardo do
que não aconteceu. Assumo a possibilidade de ser mais difícil de suportar.
Um dia, foi ontem, ou antes de
ontem, ou, talvez antes. Não sei precisar. Nunca sabemos definir o tempo das
lágrimas. Nem medir a espera e a ausência. Ainda que pudesse atrever-me a
escrever sobre os temas,parti!
Fui, porque tinha uma chave para
entregar. Uma mesa branca para colocar. Um Anjo da Guarda para rezar. Uma
plantinha nova para colocar no canto da sala e regar.
Fui, porque há muito já tinha
partido. Porque alguém batia para entrar e eu não abria a porta… Porque sou livre.
Porque o Amor é livre. Porque….porque…(…) porque. Aparte disso, não lembro mais
porque decidi partir. As decisões nunca são imediatas apenas aparentam ser.
Parti. Deixei de reconhecer a tua
cor quando sorriste e, sem brilho falaste no caminho. E, sem Luz, não és nada.
Sem mares misturados não seremos onda, não reconheceremos a praia, não
chegaremos ao destino, não desprenderemos do cais.Navegar é preciso.E é urgente! Já o escrevi tantas vezes.
O bom de tudo isto é que anoitece
e, na manhã seguinte, bem cedo, o sol nasce de novo e, com ele, nós podemos
recomeçar também. Com ou sem vento. Desde que tenhamos LUZ.
É o segundo milagre da Vida.
O primeiro...Ahhh! Esse nasce lá no fundo, junto à linha do horizonte, onde o infinito reconhece a magia das coisas boas e as transforma em vida.
L.Blue

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