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6 de fevereiro de 2013

Dezembro





Algures em Dezembro.

Sonhei que escrevia. Era fácil.
Nas palavras, a subtileza, a inteligência, o sentido exacto do que se quer dizer.
Sonhei que te escrevia.
E falava de mim. E do meu país.
Da saudade. Da relatividade da distância. Da noção de probabilidade e de tudo o que tenho, ainda, para explicar.
Mantenho as palavras do nosso primeiro texto e “acredito em Anjos da Guarda”.
Meu amor, perdi o entusiasmo. Sei que depois disso vem a tristeza profunda e depois da tristeza vem, necessariamente, o desamor…
Não sei se quero o desamor.
Sonhei-te! Sonhei-te por 220 dias, mais coisa menos coisa..
Mas, não fosse a intensidade do tempo e a sofreguidão do que não se possui!
Adiante!
Sonhei-te!
Fomos tudo o que não pudemos. E, agora, podendo quase tudo, resta-nos o desamor do futuro próximo, ainda antes da viagem, permanecendo pelo meu regresso.
Encontramo-nos aqui.
Sempre nos podemos encontrar aqui, onde os nossos nomes são cores e onde ninguém nos incomoda.
O local do nosso primeiro beijo. O único local onde parafraseamos o futuro e dissemos Amo-te.
Talvez possamos amar-nos de novo nas palavras ditas, através delas e, por elas....
A palavra dita perpetua-se.
De nós, nem um vestígio no mundo. Nem mesmo o fruto falado. Nem tão pouco a recordação banal… muito para dizer (…)
De nós, nada.
Fiz a mala e garanti o peso sem excesso da mercadoria.
Levo apenas o necessário. O que não pode ficar.
A viagem será longa, como desejei. E, sabias, também, que haveria de IR. Nunca te menti. Haveria de IR. E, desejo novamente essa ida.
Outro continente talvez…!
Índia no meu caminho. E, Índia no meu mapa de estrada.

Só não posso ficar. A permanência incomoda-me e não cresço na passividade do passaporte.

Outro rosto, quem sabe.
Nunca a chave na porta e o chegar a casa com barulho no corredor, a azáfama em frente da TV ou, o filme de sábado à noite passando na tela. Nunca o dia normal.
Busco-me.
-Não me encontro nessa casa! Não me encontro.
Encontrei-me em ti. Quase. Fica melhor desse jeito. Quase me encontrei em ti!
Quase o desejo da azáfama, quase o barulho, quase um filme na tela, quase a chave na porta, quase o amor. Quase. Mas, não tinha de ser. E, se tivesse, teria ido na mesma. Mais tarde, mas teria.
- “Perdoa. Não posso ficar…” teria repetido e sentido, tal qual Florbela Espanca, procurando mais...

Apesar de tudo, escrevo e não sofro, como no sonho, com a exactidão do que se sabe, do que se diz para dentro.
É, inesperadamente (quase) fácil recordar-te bonito, esperando do outro lado do portão… é quase reconfortante saber-te esperando do outro lado do portão. A música dos Titãs “porque eu sei que é amor” tocando e, o sofá enorme da sala.
As minhas mãos quentes e a tua cabeça caída no meu colo. O jantar na varanda e as velinhas acendendo a noite. Gosto de ver-te usar o talher… Muito para dizer e, mais ainda no entretanto.
Gosto, também, dessa expressão “mais no entretanto”. De pensar na serenidade da palavra E.N.T.R.E.T.A.N.T.O. Tempo que foi e, que não existe. Ou, que existe, mas não se palpa. Nunca busquei o significado da palavra no dicionário, mas conheço-a. Entretanto. Mia Couto talvez lhe chamasse Entremuito…  
Fomos tempo no entretanto…amor.
Fomos tempo.
Tempo.

L.Blue

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